Dia 07, de Resistencia/CHO/ARG à Joaquín V. González/SAL/ARG

Dia 07, de Resistencia/CHO/ARG à Joaquín V. González/SAL/ARG

  
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05/07/2014. Um dos dias mais difíceis da nossa viagem. Nosso plano era rodar os cerca de 820km até a cidade de Salta/SAL e dependendo de como fosse a viagem, tentaríamos seguir até a represa de Cabra Corral chegando a um total de aproximadamente 900km.

Tivemos uma boa noite de sono e de manhã fomos tomar o nosso café da manhã. O Hotel Niyat oferece um café bem simples, mas foi o suficiente para nós. Aproveitamos e perguntamos para a equipe do hotel onde poderíamos trocar dólares por pesos. Acabaram eles mesmos se oferecendo para fazer o câmbio, ficou na média do que encontramos em outros pontos da Argentina, entre a metade do câmbio oficial e o paralelo.

Se o panorama econômico argentino não mudar, a nossa recomendação é que você leve dólares em dinheiro para a sua viagem para a Argentina, pois a cotação oficial, usada para as transações com cartões de crédito e débito e pesos, era mais de trinta porcento mais baixa do que a cotação paralela, também chamada de blue. Não é todo lugar que vai aceitar o dólar, mas é possível trocá-lo por pesos em vários lugares por uma cotação melhor do que a oficial. Muitos argentinos fazem poupanças em dólar, e com a restrição para compra na Argentina, há um grande interesse em comprar dólares dos turistas. Quando viajamos, a cotação do dólar em pesos estava a oficial em ARS 8 e a paralela em ARS 12, conseguíamos trocar com facilidade por um valor perto de ARS 10, e em alguns casos chegava a ARS 11.

O problema de viajar com dólares na bagagem é o risco de roubo, por isso recomendamos também separar o montante que você estiver levando em dois ou três lugares diferentes, como por exemplo uma parte naquelas cintas para levar dinheiro debaixo da roupa, uma outra parte na bagagem da moto que possa ser trancada com chave e um pouco com você caso você precise trocar naquele dia da viagem.

Voltando ao relato… Às 8:30 já estávamos em cima da moto, saindo do hotel. No caminho para sair da cidade paramos em um posto Shell (GPS: S27.43816° W59.00085°) e abastecemos as motos. Saindo de Resistência/CHO voltamos para a Ruta Nacional 16 (RN16) e seguimos sentido Salta/SAL.

Quando saímos de Resistencia o tempo estava encoberto e quente, conforme avançávamos pela RN16 o tempo foi piorando. Mal tinhamos rodado 20km e começou a chuviscar. O chuvisco virou chuva e começou a esfriar muito. Para piorar, a RN16, em quase toda a sua extensão, passa, pelo o que nos pareceu, uma região bem pobre da Argentina. A grande maioria das cidades a margem da rodovia não tem as ruas asfaltadas. O que acontece quando chove? A rodovia vira um sabão com o barro trazido pelos caminhões que saem dessas cidadezinhas. Tínhamos que limpar as viseiras a toda hora, pois com toda aquela sujeira, não dava para enxergar nada. Mesmo com isso, conseguimos manter uma boa média, perto de 100km/h, e por volta das 10:15 fizemos uma parada num posto Shell (GPS: S26.88015° W60.22581°) na cidade de Quintilipi/CHO. Tínhamos rodado algo próximo de 150km. Fizemos esta parada para nos aquecer e colocar mais uma camada de roupa, com a chuva e o tempo frio, estávamos congelando.

Ficamos na conveniência do posto cerca de 50 minutos. Abastecemos as motos e voltamos para a estrada. A chuva e o frio acabava nos cansando mais do que o normal. A estrada também piorava, com mais irregularidades na pista. Pouco antes da cidade de Pampa Del Infierno/CHO, a estrada estava em reformas, com um trabalho de recapeamento. Não sei o que passaram naquela pista, pois num trecho de 1km, plano, andando o mais devagar que conseguíamos e de pé nas motos para melhorar o equilíbrio, a moto sambava de um lado para o outro. Avisei a Claide pelo intercomunicador para não andar muito perto de mim, pois tinha grande chance da moto sambar de vez e eu ir para o chão, e nessas condições ela não ia conseguir parar também.

Passamos por aquele trecho com o coração a mil e paramos no primeiro posto (GPS: S26.51353° W61.16883°) que encontramos, na entrada da cidade, para limpar novamente as viseiras. Rodamos apenas 250km dos 820km previstos. Como ainda faltava muito, fizemos uma parada rápida e em 15 minutos voltamos para a estrada.

Por volta das 13:10 passávamos pela cidade de Pampa de Los Guanacos/S.E., a Claide viu um hotel (GPS: S26.23409° W61.84144°) na beira da estrada e sinalizou que queria parar para se aquecer, descansar um pouco e comer alguma coisa. Olhei no GPS que tinhamos rodado pouco, uns 320km, vi também que tinha uma cidade que no GPS parecia maior, a cidade de Monte Quemado/S.E., com mais opções de hotéis. Grande erro… o hotel de Los Guanacos parecia um 5 estrelas perto do que viríamos a encontrar em Monte Quemado. Não chegamos a conhecer o hotel, e não fazemos idéia de como são os quartos, mas se você precisar pousar naquele trecho, vale a pena anotar esta opção para verificar em uma emergência.

Seguimos viagem, a meta agora era chegar em Monte Quemado, a 100km de distância, o quanto antes para almoçarmos e procurarmos um hotel para dar uma descansada. A minha insistência em seguirmos viagem acabou gerando um stress entre nós e se pudesse voltar no tempo, teria sido melhor ter parado em Los Guanacos. Para complicar mais a situação, a moto da Claide acendeu a luz da reserva, e não encontramos nenhum posto no caminho. Seguimos viagem rezando para que a gasolina fosse suficiente. Ô diazinho tenso!

Finalmente às 14:30 chegamos em Monte Quemado. A Claide, preocupada com a gasolina, parou no primeiro posto (GPS: S25.81575° W62.83154°). Um posto muito sinistro, era um verdadeiro lamaçal para chegar nele a partir da estrada, e não tinha movimento algum lá. Paramos as motos e apareceu um tiozinho e um garoto de uns 10 anos que parecia seu neto. O menino começou a abastecer a moto da Claide, quando terminou, sacou o bico da bomba com ela acionada, e deu um banho de gasolina no tanque da Tiger. Depois daquela cena e como a GSA tinha autonomia para rodar bem mais, desisti de abastecer ali. Ainda bem!!! No posto acabamos encontrando onde tinha água para lavar aquela gasolina da moto. Ficamos vários minutos limpando o tanque, e mesmo assim, não teve jeito, acabou queimando a pintura. Pagamos e saímos correndo dali em direção à cidade.

Aqui vale deixar outra dica que nos deram quando voltamos para o Brasil. Adesivar o tanque com alguma película, pode ser algo mais profissional, ou até mesmo algo mais simples, como aqueles adesivos “Contact” transparente que usávamos antigamente para proteger os livros e cadernos da escola. Tem gente que aplica também na bolha da moto, ajudando a proteger e a não riscar, caso voe uma pedra do veículo da frente.

A falta de cuidado durante o abastecimento pelos frentistas da Argentina, Chile e Peru foi a regra. Em quase todo abastecimento algo acontecia, seja respingo durante o abastecimento por conta da pressão do combustível, ou pingos na hora de tirar. E pior, ficavam ofendidos quando pedíamos um pano ou algo para limpar o que tinha caído. Não sei se por sorte, ou por alguma característica da minha BMW, isso aconteceu apenas uma vez comigo e consegui limpar, deixando o tanque sem marcas. A Triumph abastecida sim, abastecida não, pingavam o tanque, que ficou com várias marcas até hoje.

Começamos a rodar na cidade, praticamente tudo estava fechado, acredito que por conta do jogo da Argentina na Copa 2014 que rolava naquele instante. Procuramos no GPS as indicações dos hotéis da cidade. Passamos na frente dos hotéis Belgrano e 9 de Julio, ficamos com uma péssima impressão, acabamos não parando neles. Enquanto procurávamos, acabamos passando em frente a uma delegacia, onde decidi parar para pedir informação. Lá, vários policiais, todos assistindo ao jogo, até que um deles, com má vontade veio ver o que queríamos e acabou indicando o Hotel 9 de Julio, que tínhamos passado a pouco.

Voltamos para o hotel e, meio que a contra gosto, paramos nele. Na frente, um pequeno restaurante onde todos estavam assistindo ao jogo. Pedimos um prato de comida para a senhora que estava cuidando do salão e deveria ser a dona. Depois de alguns minutos, nos serviram duas refeições composta por salada, um cozido de carne com batatas, muito ruim. Tentamos comer um pouco, mas deixamos mais da metade.

Esperamos o jogo acabar e então pedimos para ver o quarto. A senhora nos levou até ele e apesar de muito ruim, acabamos ficando nele pois estávamos muito cansados. Um cheiro de mofo desgraçado, um banheiro minúsculo com encanamento vazando, além de uma sensação péssima de insegurança. Não conseguimos ficar nem uma hora ali, colocamos as malas de volta nas motos e conversamos com a senhora, avisando que estávamos indo. Acabei pagando a diária que ela cobrou, não estava com paciência para ficar discutindo, queríamos ir embora o quanto antes.

Na saída da cidade, encontramos um outro posto (GPS: S25.81347° W62.83987°), que parecia bem melhor que o primeiro. Para garantir, abasteci a BMW, sem pingos no tanque, e aproveitei para perguntar se tinha um hotel melhor na região. O frentista nos indicou a cidade de Joaquín V. González/SAL, ficava a cerca de 160km sentido Salta. Conversei com a Claide e seguimos viagem.

A chuva tinha parado, o que facilitava um pouco as coisas, mas a estrada ficou mais esburacada. Foi nesse trecho que conhecemos os passarinhos suicidas argentinos. Não sei de que raça eram, mas eram pequenos, talvez pardais. Eles ficavam no acostamento da pista, mas ao nos ver chegando, se assustavam e decolavam em direção à pista. Desviava a moto, a cabeça, o que dava para não acertar eles, mas infelizmente um deles acabou acertando a minha bolha e quicou de volta para o acostamento. Um tremendo susto. Na bolha não aconteceu nada, só ficou duas ou três penas dele lá. Depois disso, toda vez que um passarinho atravessava a pista na nossa frente, ganhava o apelido de “passarinho argentino”.

A moto da Claide começou a falhar também, certeza de que foi a gasolina daquele primeiro posto em Monte Quemado que devia estar muito adulterada. A moto além de falhar em alta, morria em marcha lenta. E foi o resto inteiro da viagem assim. Abastecemos dezenas de vezes depois disso e a moto não melhorou, tentamos usar um “flush”, um limpa injetores e nada. Só resolveu na revisão da moto, feita quando retornamos para São Paulo. Conferimos com o pessoal da concessionária, que nos confirmaram que não havia outra solução a não ser desmontar a moto e limpar o corpo de injeção. Então amigos, cuidado onde abastecer as motos em uma viagem como essa.

Depois de rodar uns 60km desde Monte Quemado, pouco depois de entrar na província de Salta, a Claide me sinaliza que precisa parar. O almoço não tinha caído bem. Paramos no meio da estrada, no acostamento. Tomamos um ar por cerca de 20 minutos para ela se recuperar e continuamos a viagem.

Acabamos chegando em Joaquín V. González somente às 18:30, levamos 10 horas para rodar 600km. Estávamos exaustos. Paramos no primeiro posto YPF (GPS: S25.12367° W64.12342°) para pedir informações sobre onde nos hospedar. Acabaram indicando um hotel na avenida principal da cidade. Eu e a Claide seguimos para lá. Naquele instante, a Claide estava na minha frente e eu com o pisca ia sinalizando quando tinha que virar. Chegamos na avenida principal e quando vi o hotel, sinalizei para ela virar a esquerda. O hotel parecia tão ruim ou pior do que o de Monte Quemado. Por sorte, a Claide fez a conversão, mas nem viu o hotel e seguiu reto. Quando fomos fazer a volta para retornar, demos de frente a um pequeno hotel, que parecia ser novo, simples, mas moderno. Ficava numa zona mais residencial, a três quadras da avenida principal, não iríamos encontrá-lo nunca. Demos muita sorte depois de todos os perrengues que tivemos. O Hotel se chama Ayres de Campo (GPS: S25.11691° W64.12859°), tem estacionamento fechado a uma quadra, o quarto era amplo, muito limpo, com ar quente/frio e um bom chuveiro. Esse hotel é um verdadeiro oásis no meio da RN16. Recomendo que mesmo que você não planeje pousar nesta cidade, leve a localização do hotel, caso haja um imprevisto, você precise mudar seus planos e tenha que pousar na região.

Descansamos um pouco e perto das 20hs, procuramos um lugar para comer. O hotel nos indicou dois restaurantes na própria RN16. Acabamos escolhendo jantar no restaurante junto ao segundo posto YPF (GPS: S25.11633° W64.13176°). A comida foi bem mediana, mas matou a nossa fome.

De bucho cheio, retornamos para o hotel para descansar e continuar a viagem no dia seguinte.

Veja também:
- o relato da Claide para este dia: "Sétimo Dia de Viajem!"
- o relato do dia anterior: "Dia 06, de São Miguel das Missões/RS à Resistencia/CHO/ARG"
- o relato do dia seguinte: "Dia 08, de Joaquín V. González/SAL/ARG à San Miguel de Tucumán/TUC/ARG"

Anexos

  • Descrição do Arquivo
    Tamanho do Arquivo
    Tipo do Arquivo
    Downloads
  • mr2014_07_full.GPX.zip
    Track Garmin (completo e compactado .zip) do trecho que fizemos no dia 06 da expedição.
    53 KB
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  • mr2014_07_cpt.GPX
    Track Garmin (compacto) do trecho que fizemos no dia 07 da expedição.
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