Dia 13, de Tilcara/JUJ/ARG ao Atacama/AN/CHI

Dia 13, de Tilcara/JUJ/ARG ao Atacama/AN/CHI

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11/07/2014. Quando programamos a viagem, já sabíamos que este seria um dos trechos mais difíceis, pois faríamos a travessia da Cordilheira dos Andes no inverno e corríamos o risco da estrada estar fechada pelo mal tempo. Tanto o Christian do hotel de Cafayate/SAL quanto a dona do hotel de Tilcara/JUJ nos contou que o Paso de Jama quando fecha, é por poucos dias, pois é uma importante ligação entre Argentina e Chile, por onde são transportados os mais diversos produtos, mas especialmente minério. Você pode consultar a situação das fronteiras nos sites das polícias argentinas e chilenas (ou twitter: @UPFronterizos). Nós consultamos e a passagem estava aberta, huuuuuuu huuuuu!!!

Saímos do Hotel Las Terrazas de Tilcara (GPS: S23.57610° W65.39041°, booking.com) às 09:35, paramos no posto YPF que fica na saída da cidade para abastecer e então pegamos a Ruta Nacional 9 (RN9) sentido sul. Acabamos não saindo muito mais cedo, pois esperamos a temperatura subir um pouco para facilitar a travessia. O céu estava bem limpo e conseguimos ver com outros olhos este trecho da estrada, que mesmo árido, apresenta vistas do vale muito bonitas.

Pegamos a Ruta Nacional 52 (RN52) sentido Chile pouco depois das dez. Bem no começo, a estrada passa pela pequena cidade de Purmamarca/JUJ, que também pode ser uma outra opção de local de pernoite antes da travessia, desde que você tenha abastecido a moto em Jujuy ou Tilcara. Da estrada vimos alguns hotéis que pareceram bem simpáticos e se os preços forem mais competitivos, são uma alternativa ao hotel que ficamos em Tilcara.

A Cuesta de Lipán (GPS: S23.66802° W65.57680°) é um trecho sinuoso de 17km da RN52 começando pouco depois da cidade de Purmamarca à 2192 msnm (metros sobre o nível do mar) e ascendendo à 4170 msnm na Abra de Potrerillos. Quanto mais subimos a encosta melhor conseguimos observar o vale e ver o trecho que tínhamos percorrido. Se você quiser parar para tirar fotos, sugiro parar onde há uma placa com a indicação de “Abra de Lipán”, mais próximo do topo, onde há um pequeno acostamento do lado do vale. Quando passamos, haviam três pequenos trechos em rípio em bom estado, cada um devia ter menos de 100 metros. Acredito que já devam estar consertados.

Bem próximo dali há dois outros pontos interessantes para fotos. O primeiro, onde há um marcador (GPS: S23.69886° W65.65956°) indicando a altitude de 4170 msnm, é o ponto mais alto da estrada no lado argentino até chegarmos no Paso de Jama. No lado chileno vamos chegar a mais de 4800 msnm. O segundo ponto (GPS: S23.70369° W65.67104°), não tem exatamente um lugar para parar, mas tem uma bela vista para um vale, no mínimo vale a pena olhar de cima da moto mesmo, que foi o que fizemos.

Então começamos a descer. O traçado depois deste vale se torna menos sinuoso e passa a ser de longas retas. Por sorte, o céu estava bem aberto e o sol ajudava a aguentar a temperatura que foi caindo. Começamos o dia em Tilcara à +12C, no topo da Cuesta de Lipán foi para +8C e foi despencando nos 30km até a Salina Grande, onde estava -1C.

Fizemos nossa primeira parada na Salina Grande em um dos bolsões onde você pode parar o seu carro/moto e há venda de artesanato (GPS: S23.60880° W65.86450°). Neste em que paramos havia inclusive um banheiro químico. Descemos e caminhamos na salina. O sal fica tão compactado, que parece um concreto de tão firme. Deu vontade de entrar com as motos lá, mas como não vimos ninguém entrar com o veículo, acabamos desistindo da idéia. Talvez existam pontos permitidos e adequados para fazer isso. Sugiro você pesquisar antes na internet os melhores locais para você fazer isso, caso seja a sua vontade.

Nessa parada, para me manter aquecido preferi não tirar nem o capacete ou a luva. A Claide aproveitou para colocar mais uma camada intermediária de roupa. Eu já estava com todas as minhas. Naquele instante, sem vento, com o sol batendo em nós e agasalhados, estava fácil suportar o frio. Ficamos pouco menos de meia-hora lá e logo voltamos para a estrada.

A Salina Grande fica em um trecho da RN52 onde o traçado é praticamente uma longa reta de 40km. Aqui tem que se manter a concentração pois ao lado da estrada encontramos vários animais, desde vicuñas e lhamas, até burros e vacas. Em dois pontos, estavam atravessando a pista na nossa frente.

Os próximos 30km até Susques/JUJ atravessa uma região montanhosa, o traçado da pista passa a ser novamente sinuoso e desta vez encontramos uma tropa de burros na pista. Da estrada conseguimos ter uma vista interessante do vale do Rio de Las Burras, um vale bem árido e com o rio congelado nessa época do ano (inverno).

A cidade de Susques/JUJ é a ultima cidade antes da fronteira com alguma infra-estrutura. Como a humidade é muito baixa, a temperatura chega a virar 30C em um dia. No inverno a temperatura mínima chega a -23C, com média durante o dia de +3C. Existe algumas opções de hospedagem, mas a única que você consegue fazer reserva online é o Complejo Turístico Pastos Chicos (booking.com). Há um posto de combustível na cidade (GPS: S23.42296° W66.38414°), mas já ouvi falar tanto bem quanto mal da qualidade do combustível. Quando passamos, já era cerca de 12:20 e decidimos continuar a viagem, sem parar.

Os 115km até o complexo fronteiriço do Paso de Jama (GPS: S23.23707° W67.02297°) foram tranquilos, a única dificuldade foi o vento, que estava forte. Tínhamos que compensar o vento inclinando um pouco as motos. Chegamos a fazer uma parada rápida a uns 20km antes do complexo para trocar a bateria da câmera GoPro. Lá cuidamos para não deixar nenhum pertence solto, para que saíssem voando enquanto estávamos parados. Cheguei a imaginar a moto tombando com o vento, mas acho que ainda estava longe disto acontecer.

Chegamos às 13:30 no Posto YPF (GPS:S23.23797° W67.01899°), que fica a 500 metros antes do complexo. Acabamos fazendo uma parada longa lá, de quase 1h15m. O posto é bem completo, com combustível, uma ótima loja de conveniência e banheiros limpos. Abastecemos as motos, comemos sanduíches e algumas tranqueiras de almoço mas, o que nos fez demorar mais, foi o tempo para nos aquecermos e continuar a viagem. Junto ao posto há quatro quartos para hospedagem, gerenciados pelo Automóvil Club Argentino (contato), que numa emergência são uma excelente opção.

Às 14:40 entramos no complexo para fazer todo o processo aduaneiro. O primeiro passo é fazer a saída da Argentina, que foi um processo relativamente tranquilo, demorou um pouco mais pois a representante tinha entendido que era apenas uma moto e não sabia qual era o procedimento para corrigir. Já no passo chileno, foi bem mais burocrático, para piorar, estavam treinando uma atendente nova, que se perdia e um supervisor tinha que ajudar. Alguns dos termos em espanhol no formulário acabavam confundindo a gente, mas como tinha a tradução para o inglês, não cometemos nenhum erro no preenchimento.

O último passo do processo, depois de toda aquela papelada e carimbos de várias cores, foi a vistoria das motos por um dos policiais. Partindo do princípio que você não está fazendo nada ilícito, as duas maiores preocupações são com o transporte de alimentos in natura e folhas de coca. Como o que tínhamos de alimento era tudo industrializado e não transportávamos nenhuma folha de coca, a vistoria foi bem superficial. O policial bem simpático, chegou até a brincar com a Claide sobre o seu kit de maquiagem que estava no baú da moto.

Enquanto novamente nos agasalhávamos e vestíamos os equipamentos vimos o mesmo policial indo vistoriar um Troller de um casal de brasileiros. Eles tinham chegado a aduana antes de nós, mas como acredito que não arranhavam nem no espanhol ou no inglês, fizeram uma tremenda confusão no preenchimento dos formulários. O policial já estava irritado com eles. A cada pergunta feita, eles tinham dificuldade para responder. Enquanto saíamos, só vi o policial subir o tom e ser mais ríspido ao perguntar se transportavam folhas de coca. Não vimos, mas o policial deve ter virado o jipe do avesso. Acredito que o transporte de uma pequena quantidade de folhas de coca ou “caramelos” (balas) para consumo próprio seja permitido. Mas é bom você verificar esta informação se você quiser atravessar a fronteira com eles.

O processo todo na aduana levou 1h05m e acabamos saindo às 15:45 de lá. A divisa dos países fica a cerca de 5km do complexo à 4320 msnm (GPS: S23.22668° W67.06254°). Encostei a moto e deixei a GoPro tirar algumas fotos dali. Uma coisa que só percebi agora, quando fui ver as fotos da câmera com calma, é que as placas ao lado da pista estão cheias de adesivos de outros viajantes que passaram por ali.

Finalmente entramos oficialmente no Chile, a estrada muda a sua designação para Ruta 27-CH. São 157km até a cidade de San Pedro de Atacama. Passando a divisa, as rajadas de vento ficaram mais fortes, obrigando a inclinar mais a moto na reta para compensar. Levávamos sustos quando a rajada parava, recomeçava ou mudava de direção, tudo isso numa temperatura de uns +5C.

A estrada seguia e apontava na direção de várias nuvens e isto nos deixava apreensivos, será que o tempo iria piorar? Na fronteira o céu estava bem aberto, depois começou a ficar encoberto com nuvens brancas. Após uns 20km da fronteira, próximo ao Salar de Quisiquiro (GPS: S23.19517° W67.28356°), as nuvens já eram mais escuras e o sol começava a sumir. Mais 20km, chegando na Laguna Negra, que fica no Salar de Aguas Calientes (GPS: S23.13733° W67.42461°), começou a chuviscar uma chuva bem fina, que próxima do solo, virava neve mais fina ainda, que o vento levava como se fosse uma poeira branca sobre a pista.

A moto mostrava a temperatura de +2.5C e alertava sobre a possibilidade de gelo negro na pista. Gelo negro é quando a a água se congela e solidifica sobre a pista, diferente de um piso com neve, que lembra um pouco o comportamento da moto na lama. O gelo negro é extremamente liso e perigoso, por melhor que seja o piloto, é tombo na certa. Olhando de cima da moto, parecem manchas negras no asfalto. Podem ter sido formadas desde pequenas poças d’águas até trechos inteiros da pista.

O tempo encoberto, a atenção com a pista e a vontade de sair daquele frio o quanto antes, não deixou aproveitarmos algumas belas paisagens dos salares e vulcões. Próximo de uma formação rochosa chamada Monjes de la Pacana (GPS: S23.06468° W67.48026°), umas manchas na pista nos deixavam ressabiados, não sabíamos se era gelo negro ou simplesmente uma mancha, mas conseguíamos desviar facilmente da maioria e não tivemos nenhum susto.

O pior trecho foi o próximo ao Rio Quepiaco (GPS: S23.11367° W67.54337°). A temperatura caiu a -1C, chuvisco deu lugar a uma neve fina e o vento não deu trégua. Foi um trecho bem cansativo, pois exigia muita atenção, além disso toda a roupa e equipamento que estávamos usando não deram conta do frio. Não foi impossível aguentar o frio, mas estávamos longe da nossa zona de conforto. Na verdade estávamos sobrevivendo àquele trecho. Já estavamos bem agasalhados, acredito que mais roupa não teria feito diferença. A única solução para aumentar o conforto seria ter usado roupas elétricas ligadas à bateria da moto.

A temperatura e a viagem só começaram a melhorar quando passamos o ponto mais alto da estrada (GPS: S22.92587° W67.70193°), a mais de 4800 msnm, e inicia a descida de cerca de 50km até a cidade de Atacama. O traçado se torna praticamente uma longa reta, com poucas curvas. Por ser um trecho muito longo em declive, há várias áreas de escape ao lado da pista para caminhões que perderam os freios. Lembram umas caixas de brita de uns 100 metros de comprimento. Por falar em caminhões, foi o que mais encontramos trafegando na estrada e vários com problemas, parados ou abandonados no acostamento da estrada. Como a estrada é bem longa, rodamos vários quilômetros sem cruzar com um.

Chegamos na cidade de San Pedro de Atacama perto das 18hs. Na entrada da cidade há um outro posto da aduana, mas para quem já fez todo o trâmite no Paso de Jama, não há necessidade de parar ali. Este posto atende principalmente quem está chegando ou indo para a Bolívia através da passagem fronteiriça chamada Portezuelo Del Cajón (ou Hito Cajón), acessível por uma estrada de rípio (GPS: S22.92054° W67.80728°) que liga a Ruta 27-CH à Reserva Nacional Eduardo Avaroa no lado boliviano.

Entramos na cidade e com a ajuda do GPS encontramos a pousada onde fizemos reserva, chamada Hostal Lickana (GPS: S22.91139° W68.20268°, booking.com). A recepção estava trancada e sem ninguém para nos atender, foi quando vimos um papel colado no vidro, com o meu nome e o número do nosso quarto. A chave estava na porta e começamos a descarregar a bagagem da moto, felizes por termos realizado a travessia com sucesso.

Depois demos uma pequena volta na cidade. A Claide não resistiu e comprou um poncho com desenhos de lhama e lã de Alpaca (um tipo de lhama). Decidimos arriscar e fomos jantar num restaurante do lado do hotel, chamado Bendito Desierto. Para variar o cozinheiro não tinha chegado e acabaram sugerindo dois pratos que conseguiriam servir sem ele. Eu gosto de experimentar e acabei pedindo um estofado de llamo (um cozido de lhama), a Claide pediu um pastel de choclo andino (uma torta de milho) com salada. Estavam horríveis, odiamos nossos pratos. E para fechar com chave de ouro, o atendimento era péssimo e fizeram uma das piores cotações para aceitar o pagamento em dólares.

Cansados, voltamos para o hotel para repor as nossas energias.

PS: Ficamos sabendo por um casal de motociclistas chilenos que, no dia seguinte, o Paso de Jama foi fechado pela neve e que eles teriam que aguardar alguns dias para seguir para a Argentina.

Veja também:
- o relato do dia anterior: "Dia 12, de Cabra Corral/SAL/ARG à Tilcara/JUJ/ARG"
- o relato do dia seguinte: "Dia 14, Valle de La Luna em San Pedro de Atacama/II/CHI "

Distâncias e tempos de viagem
distância
(km)
tempo
(h m)
altitude
(msnm)
descrição GPS
0 0m 2242 inicio no encontro com a RN9 S23.74411° W65.47020°
3 4m 2350 cidade de Purmamarca/JUJ/ARG S23.74513° W65.49847°
17 16m 2974 Cuesta del Lipán (inicio) S23.66704° W65.57912°
32 34m 3888 Abra de Lipán S23.68742° W65.62948°
37 38m 4132 Marcador de Altitude S23.69886° W65.65956°
39 40m 4095 Vista do Vale S23.70369° W65.67104°
67 1h 00m 3401 Salina Grande S23.60880° W65.86450°
136 1h 50m 3620 cidade de Susques/JUJ/ARG S23.40188° W66.36867°
252 2h 46m 4104 Paso de Jama (Aduana ARG/CHI) S23.23707° W67.02297°
281 3h 09m 4218 Salar de Quisiquiro S23.19517° W67.28356°
301 3h 24m 4253 Salar de Aguas Calientes / Laguna Negra S23.13733° W67.42461°
311 3h 30m 4427 Monjes de la Pacana S23.06468° W67.48026°
330 3h 46m 4555 Laguna Quepiaco S23.11367° W67.54337°
358 4h 05m 4809 Ponto mais alto da travessia S22.92587° W67.70193°
372 4h 15m 4591 Saída para a Bolivia S22.92054° W67.80728°
413 4h 51m 2483 cidade de San Pedro de Atacama/CHI S22.91385° W68.19196°
* o tempo total rodando foi de 4h 51m, o tempo parado foi de 3h 15m, o tempo total de viagem foi de 8h 06m

Anexos

  • Descrição do Arquivo
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    Tipo do Arquivo
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    Track Garmin (reduzido) do trecho que fizemos no dia 13 da expedição.
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    Track Garmin (completo e compactado .zip) do trecho que fizemos no dia 13 da expedição.
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